Valci Melo - Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania (2017)
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Crítica e Sociedade: revista de cultura política
ARTIGO
ENSINO DE SOCIOLOGIA PARA O EXERCÍCIO
DA CIDADANIA:
UMA RELAÇÃO COMPROMETIDA COM A
ORDEM SOCIAL VIGENTE
Valci Melo1
valcimelo@hotmail.com
Introdução
A articulação entre educação e cidadania no Brasil é antiga e se expressa
não apenas no sentido de que somente aqueles assim considerados têm direito à
educação (BRASIL, 1824, art. 179, XXXII 2 ), mas também, como uma das
finalidades do processo de escolarização.
1 Licenciado em Pedagogia pela Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL, 2011), graduado
em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL, 2017), Mestre (2016) e
doutorando em Educação, também pela UFAL, e professor da rede pública municipal de São
José da Tapera, Sertão Alagoano.
2 Sobre este momento histórico (Império), Cury (2011) observa que embora a instrução primária
e gratuita a todos os cidadãos compareça na legislação (artigo 179, inciso XXXII), era limitada a
quantidade de pessoas que podiam ser consideradas cidadãs em virtude da existência do regime
escravocrata e da restrição do direito político ao voto censitário.
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Neste último sentido, tal relação comparece, de forma explícita, na Lei de
Diretrizes e Base da Educação - LDB 5.692/71, quando esta trata das finalidades
do ensino de 1º e 2º grau, podendo também ser constatada, indiretamente, nas
alíneas “a” a “d” do artigo 1º da LDB 4.24/61 quando esta trata das expectativas
para a educação escolar.
No caso do ensino de Sociologia, tal vinculação é mais forte ainda, pois
se a LDB 9.394/96 a requisita, mesmo antes de ser reconsiderada disciplina,
como um dos “conhecimentos necessários ao exercício da cidadania” (BRASIL,
1996, art. 38, inciso III), esta exigência não se constitui novidade histórica, visto
que a presença da Sociologia no primeiro momento de obrigatoriedade
(1925-1942), como nos mostra Meucci (2000), ao analisar os manuais didáticos
da época, já girava em torno da ideia de formação para a civilidade e para a
intervenção social, o que, em última instância, corresponde à ideia de formar
para a cidadania.
Mas o que significa mesmo exercitar a cidadania? Que conceito é este em
torno do qual se articulam contemporaneamente, como nos lembra Tonet
(2007), tanto pensadores liberais como intelectuais progressistas? Teria a
cidadania um significado fixo, historicamente posto, uma literalidade, ou seu
conteúdo significativo depende da formação discursiva 3 a partir da qual é
enunciada?
Para buscar responder as indagações apresentadas acima, recorremos ao
aporte teórico da Análise do Discurso filiada ao filósofo francês Michel Pêcheux
(1938-1983), em sua indispensável articulação com o materialismo
histórico-dialético (CAVALCANTE, 2012), referencial a partir do qual
consideramos que “[...] os sentidos não estão só nas palavras, nos textos, mas na
3 Na esteira de Pêcheux (1995), entendemos formação discursiva como o lugar sócio-histórico
de onde o sujeito enuncia por estar com ele ideologicamente identificado.
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relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos e que não
dependem só das intenções dos sujeitos” (ORLANDI, 2007, p. 30).
O percurso da pesquisa e os sujeitos envolvidos
Para realizar a pesquisa aqui apresentada, entrevistamos e aplicamos
questionários com 10 professores que lecionam Sociologia em escolas públicas
estaduais do Sertão Alagoano, quantidade que corresponde a 20% do universo
de professores pesquisado. Por meio desses instrumentos (entrevistas e
questionários), e à luz do materialismo histórico-dialético, buscamos
compreender quem são esses professores (sexo, idade, formação inicial e
continuada, vínculo empregatício, experiência profissional, condições de
trabalho, etc.), como eles lidam com o ensino da referida disciplina e o que
pensam sobre ela.
Os docentes foram selecionados com base nos seguintes critérios: a)
professores que atuam em escolas públicas do Sertão Alagoano com a maior
quantidade de docentes de Sociologia; b) docentes que atuam em escolas com a
maior quantidade de estudantes de nível médio; c) docentes vinculados a escolas
de cada uma das três Gerências Regionais de Ensino (GERE) do Sertão
Alagoano.
Conforme levantamento realizado por email e via telefone junto as três
GERE4 do Sertão Alagoano, a região conta com cerca de 50 professores que
lecionam a disciplina Sociologia, dos quais apenas 20 têm vínculo efetivo, e
4
À época da pesquisa de campo (maio a junho de 2015) a nomenclatura utilizada era
Coordenadorias Regionais de Ensino (CRE). O estado possui 15 GERE, das quais três estão
situadas no Sertão Alagoano. Estas atendem 25 municípios e contam com 40 escolas públicas
estaduais que ofertam o Ensino Médio, envolvendo, conforme dados do Censo Escolar de 2014,
17.735 estudantes (14,71% dos estudantes da rede pública estadual).
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destes, somente 02 têm formação específica em Ciências Sociais. Entre os
professores efetivos, 13 atuam na 11ª GERE, a qual também concentra os 02
professores com habilitação específica em sala de aula.
Os professores participantes deste estudo representam bem este cenário,
na medida em que dos 10 docentes pesquisados, apenas 04 têm vínculo efetivo, e
destes, somente 01 tem formação na área, conforme se pode ver no quadro
abaixo:
Quadro 1. Perfil dos professores de Sociologia do Sertão Alagoano em junho de
2015.
Professor
Idade
Tempo de
Tempo
Formação
magistério
lecionando
Acadêmica
(anos)
Sociologia
Ano
Vínculo
(anos)
KA
43
24
3
Pedagogia
2006
Efetivo
LF
33
15
3
Pedagogia
2005
Efetivo
RG
41
12
0,4
Pedagogia
2008
Monitor
MG
44
20
12
Pedagogia
2012
Monitor
AE
48
20
2
História
2005
Monitor
AMA
42
15
2
Pedagogia
2006
Efetivo
DS
24
6
2
Pedagogia
2013
Monitor
AS
30
2,5
2,5
Pedagogia
2012
Monitor
AM
33
2
2
Ciências Sociais
2005
Efetivo
RF
33
10
5
Pedagogia
2012
Monitor
Fonte: pesquisa de campo realizada pelo autor.
Conforme demonstra o quadro acima, os professores que lecionam a
disciplina Sociologia no Sertão Alagoano são trabalhadores em educação que
majoritariamente vêm de uma formação inicial em Pedagogia (80%); todos
concluíram a graduação há menos de uma década – apesar de 70% deles já
atuarem há mais de 10 anos no magistério; 80% estão lecionando a disciplina a
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menos de quatro anos; 90% situam-se, em sua maioria, acima dos 30 anos de
idade e 60% têm vínculo de monitoria, situação de exceção que há décadas é
praticada como regra no âmbito do Ensino Médio alagoano. Um/a dos/as
professores/as participantes do estudo, por exemplo, está há 12 anos como
monitor/a atuando junto à disciplina.
O vínculo de monitoria intensifica a precarização do trabalho já
vivenciada pelos professores pesquisados, uma vez que, conforme demonstra o
quadro 2, 70% deles lecionam mais de uma disciplina para a qual, geralmente,
também não têm licenciatura na área.
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Quadro 2. Condições de trabalho dos professores pesquisados em junho de
2015
Professor
KA
Disciplinas que
Turnos
Escolas
Qtd de
Outras
Carga
também leciona
que
em que
estudantes que
funções que
horária
trabalha
atua
atende
também
semanal
(em Sociologia)
exerce
340
Professor/a de
Educação Infantil
2
2
45
Ed. Infantil
LF
Filosofia e Língua
3
3
280
Portuguesa
RG
Nenhuma
Professor/a
60
universitária
3
2
880
Coordenação
42
pedagógica
MG
Filosofia
3
4
1320
Nenhuma
40
AE
História
1
2
50
Nenhuma
13
AMA
Filosofia
3
1
597
Nenhuma
30
DS
Filosofia e Arte
3
3
1000
Nenhuma
38
AS
Nenhuma
2
3
700
Coordenação
40
pedagógica
AM
Nenhuma
2
2
1480
Nenhuma
45
RF
Filosofia, História
3
3
250
Direção de
50
da Educação e
escola
Didáticas em geral
Fonte: pesquisa de campo realizada pelo autor.
Também é possível ver no quadro 2 que metade dos docentes exerce
outras funções além da docência no Ensino Médio, bem como que 90% deles
atuam em mais de uma instituição, trabalhando, no mínimo, dois turnos,
perfazendo uma alta carga horária semanal e atendendo uma quantidade enorme
de estudantes – isso considerando-se apenas os educandos que atendem na
disciplina Sociologia.
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
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Estas condições, juntamente com o vínculo empregatício precário e a
falta de formação inicial e continuada5 na área de atuação, desafiam o ensino de
Sociologia ofertado nas escolas públicas estaduais do Sertão Alagoano, na
medida em que correspondem exatamente aos aspectos objetivos e subjetivos
face aos quais a disciplina é lecionada e, de um modo geral, a partir dos quais a
profissão docente é exercida.
São, pois, estes os sujeitos participantes de nosso estudo. Com eles
realizamos entrevistas e questionários que nos possibilitaram, além do
mapeamento das questões já elencadas, a identificação de seus discursos acerca
da finalidade do ensino de Sociologia e da vinculação entre essa disciplinar
escolar e o exercício da cidadania.
O questionário, que em quase todos os casos foi enviado previamente
para os docentes via email, após este ser contactado por telefone, incluía oito
itens, sendo seis fechados e dois abertos. Os dois itens abertos versavam sobre o
que o docente pensa acerca do ensino de Sociologia e, na opinião dele, qual deve
ser a finalidade do ensino desta disciplina e o porquê. As questões fechadas
abordavam o perfil etário, formativo e profissional do docente, as condições de
trabalho, os conteúdos trabalhados, os subsídios utilizados para o
planejamento/execução das aulas e o acesso aos documentos oficiais da área de
atuação.
5 A formação continuada em nível de aperfeiçoamento é praticamente inexistente, visto que nos
três casos em que os docentes disseram ter participado de algum tipo de formação que
contemplasse a disciplina na qual atuam, esta aconteceu sob a responsabilidade da escola e mais
próxima do que poderíamos chamar de reunião pedagógica. Já no tocante à pós-graduação,
enquanto diversos outros estados da federação já oferecerem através de suas instituições
públicas, federais e estaduais, o curso de especialização em Ensino de Sociologia para o Ensino
Médio, os professores que lecionam Sociologia no Sertão Alagoano realizam cursos deste nível
em outras áreas do conhecimento, especialmente, na área da educação e, no interior desta, em
psicopedagogia.
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Já o roteiro de entrevistas incluía, além do aprofundamento de algumas
questões já levantadas no questionário, a exemplo do perfil profissional, da lida
com a disciplina e das condições de trabalho, a abordagem acerca da relação
entre o ensino de Sociologia e o exercício da cidadania. Ou seja, perguntamos
aos docentes qual é a finalidade do ensino de Sociologia, o que eles entendem
por cidadania e como esta questão se relaciona com o ensino da referida
disciplina escolar.
Embora não estivesse previamente no roteiro de entrevistas, o
desenrolar da conversa com os docentes nos possibilitou ouvir 60% deles sobre
a possibilidade de superação da ordem social vigente, uma vez que a reflexão dos
mesmos acerca da lida com a disciplina fazia menção aos desafios do sistema
capitalista.
A partir das respostas dos docentes, elaboramos um quadro comparativo e
deste pudemos extrair as questões norteadoras que serão analisadas a seguir,
juntamente com as sequências discursivas (SD) selecionadas.
A problemática da cidadania está presente no discurso de todos os
professores participantes do estudo, seja quando questionados acerca do que
pensam sobre o ensino de Sociologia ou sobre a finalidade da disciplina, seja
quando solicitados para comentarem o vínculo entre cidadania e Sociologia
estabelecido pelos documentos oficiais.
Neste sentido, compreendendo tratar-se de um conceito que no Brasil,
após 1970, passou a ser usado em discursos comprometidos com os mais
diferenciados projetos de sociedade (DAGNINO, 1994; TONET, 2005;
MORAES, 2009), solicitamos aos docentes que definissem o que entendem por
cidadania no sentido de nos ajudar a compreender melhor sobre o que estão
pensando quando fazem uso deste conceito.
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
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A seguir, apresentaremos de forma mais detalhada os dados coletados
junto a estes sujeitos que tornam concreto o ensino de Sociologia no Sertão
Alagoano. Por razões éticas exigidas pelo Comitê de Ética da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL) e acordadas entre nós e os professores pesquisados,
mediante assinatura de Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE),
será omitida ao longo do texto a identidade dos sujeitos e das instituições
participantes do estudo.
Cidadania como relação política: a noção de direitos e deveres
Ao definirem cidadania diretamente ou usarem o conceito para justificar a
finalidade do ensino de Sociologia em nível médio, frequentemente os
professores entrevistados recorrem à acepção clássica do termo, concebendo-o
como uma relação contratual entre o indivíduo e o Estado, mediante a qual
ambos têm direitos e deveres a serem cumpridos.
[SD1] Cidadania para mim significa ter a garantia dos direitos
que a Constituição determina e que também precisamos ser cumpridores
dos deveres para que possamos cobrar nossos direitos
(PROFESSOR/A KA, grifo nosso).
[SD2] O ato de estar inserido na sociedade e o cumprimento das regras
determinadas pelo governo de maneira direta e indireta no
processo de construção do conhecimento (PROFESSOR/A
DS, grifo nosso).
[SD3] Cidadania é o direito a ter direitos, que está relacionado
com todo o currículo escolar (PROFESSOR/A LF, grifo
nosso).
[SD4] Cidadania é quando um indivíduo, conhecedor dos seus
direitos e deveres, utiliza-os como meio de buscar direitos sociais coletivos,
para si e sua comunidade sempre que se fizer necessário
(PROFESSOR/A AMA, grifo nosso).
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
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[SD5] Cidadania é participar ativamente da vida em sociedade,
buscando compreender os fatos que estão a nossa volta. É
quando cumprimos nossos deveres e exigimos nossos direitos para que
a
“máquina”
social
funcione
coercitivamente
(PROFESSOR/A AS, grifos nossos).
Os discursos 6 dos professores materializados nos enunciados acima
apontam para a consideração da cidadania enquanto relação política centrada no
binômio direitos-deveres, aparecendo em alguns enunciados como algo posto
verticalmente: “direitos que a constituição determina” (SD1), “regras
determinadas pelo governo” (SD2); e em outros como algo construído mediante
a participação das pessoas e como garantias que levam a outras vantagens em um
movimento contínuo de conquistas: “direito a ter direitos” (SD3), “meio de
buscar direitos sociais coletivos, para si e sua comunidade” (SD4), “participar
ativamente da vida em sociedade” (SD5).
Essas definições de cidadania materializam discursos que, em nosso
entender, dialogam, em um movimento de reformulação-paráfrase (PÊCHEUX,
1995, p.177), com a Formação Discursiva Liberal, centrada na garantia de
direitos civis e políticos (cumprimento de regras e deveres, participação ativa na
vida em sociedade...) e na tímida convocação da responsabilidade do Estado para
com os direitos sociais (cobrança de direitos, direito a ter direitos, direitos para si
e para a sua comunidade).
Esta heterogeneidade dentro de uma mesma formação discursiva se dá
tanto pelo fato de existirem posições-sujeito7 diversas no interior de uma mesma
6 Discurso aqui é usado não como sinônimo de fala, e sim, na esteira de Pêcheux (1995), como
os “efeitos de sentidos” produzidos pelos sujeitos ao fazerem uso da linguagem.
7 Na esteira de Pêcheux (1995), ao enunciar, o sujeito do discurso o faz afetado pela ideologia
que controla a formação discursiva de onde ele enuncia. Neste sentido, ele não é a origem dos
“efeitos de sentidos” que produz ao enunciar. Pelo contrário, assume posições-sujeito dentro de
um já-dito. No entanto, não sendo essa sua relação com o “sempre-já-assim” mecanicamente
determinada, abre-se espaço para ir-se além da retomada e incorporação de sentidos, fazendo-se
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formação discursiva (o que evidencia o papel ativo da subjetividade), como
também, porque uma mesma formação ideológica pode e abriga mais de uma
formação discursiva (MELO, 2011, p.158-162). E isto acontece porque,
conforme observa Pêcheux (2006, p. 56-57), embora o dizer (intradiscurso)
necessite inevitavelmente relacionar-se com o já-dito (interdiscurso) para se
constituir como tal, este movimento não consiste em pura repetição alicerçada
em uma identificação absoluta (reprodução perfeita), o que, em última instância,
apagaria a possibilidade do discurso como “acontecimento”. Pelo contrário,
conforme o autor, enquanto “[...] índice potencial de uma agitação nas filiações
sócio-históricas” (PÊCHEUX, 2006, p. 56), todo discurso está apto a realizar um
duplo movimento de identificação-paráfrase (sem ser pura repetição) ou
deslocamento de sentidos, negação, oposição, o que, por sua vez, torna as
fronteiras entre as formações discursivas bastante completas, tênues e flexíveis.
No caso em tela, embora os discursos dos docentes dialoguem
simultaneamente com posições-sujeito diferentes (a liberal e a democrática),
ambas situam-se no âmbito da ideologia reformista, para a qual, não sendo
possível superar o capitalismo, resta-nos buscar formas de tornar esta sociedade
menos desigual, menos injusta, etc.. Isso, em última instância, acaba contradizer
radicalmente a função essencial do ensino de Sociologia que, conforme
defendem as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, Conhecimentos de
Sociologia - OCEM-Sociologia (BRASIL, 2006), consiste em promover a
desnaturalização e o estranhamento da realidade social.
Assim, mesmo reconhecendo a pluralidade teórico-ideológica na qual se
alicerça a Sociologia, seja como ciência, seja como disciplina escolar, e a
legitimidade de cada uma das perspectivas analíticas na abordagem da realidade
uso da língua para também deslocar sentidos, produzindo-se o novo. Daí ser ele um ser
condicionado, mas também, um sujeito de sua história.
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
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social, no caso em tela, consideramos que tal discurso, ao não problematizar as
possibilidades societárias para além do simples aperfeiçoamento, acaba por
naturalizar aquilo que deveria ser tomado como essencialmente histórico-social.
Cidadania como forma de sociabilidade
A partir do triunfo da ideologia neoliberal, facilitado pela crise do Estado de
bem-estar social e pela reestruturação produtiva, visualiza-se uma intensa disputa
de sentidos ao redor do termo cidadania, passando este conceito, ao mesmo
tempo, por acirrados ataques em sua dimensão social e até política, mas
ganhando novos contornos no aspecto civil, que acabam por colocá-lo não
apenas como instrumento para uma sociedade dita melhor, mas também, como
uma forma de vida desejável (CORTINA, 2005; TONET, 2007; MORAES,
2009).
Esta ressignificação conceitual que, segundo Cortina (2005), consiste em
uma tentativa de compensação, no campo das relações sociais, da acirrada
competição e do individualismo exacerbado na esfera econômica tem provocado
uma tensão discursiva, na medida em que, conforme Dagnino (2004), realiza
uma “confluência perversa” entre projetos societários “antagônicos”.
No tocante aos professores participantes deste estudo, observamos que
o discurso de alguns também se alinha a este processo de ressignificação da
cidadania, a qual, para além de uma relação civil, política e social, aponta para
uma concepção que a coloca como forma de sociabilidade, entendida esta como
“o conjunto das relações sociais” (LESSA, 2012, p. 25), como modelo de vida
almejado.
[SD6] [...] A cidadania se faz com isso: com respeito entre as
culturas, entre os saberes. Resgatando vidas que talvez estejam
esquecidas (PROFESSOR/A RG, grifos nossos).
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comprometida com a ordem social vigente
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[SD7] [...] Ser cidadão eu acho que é uma questão de
personalidade, de formação de caráter; você entender que você faz parte da
sociedade. A sociedade ela existe por causa de você e tudo o que acontece
em volta da sociedade depende de nós (PROFESSOR/A MG, grifos
nossos).
[SD8] Cidadania é a participação do indivíduo nas escolhas e decisões
importantes da sociedade, como também, ser atuante, opinar,
fazer, se comprometer com tudo para o bem comum
(PROFESSOR/A RF, grifos nossos).
Pelo exposto, infere-se também que a cidadania é concebida não apenas
como meio para a construção de uma sociedade diferente da que existe, mas
também, como o próprio modelo de sociedade desejada, na qual se possa,
independentemente dos interesses antagônicos e dos conflitos entre as classes
sociais, respeitar as diferenças (SD6), exercitar o sentimento de pertença à
sociedade (SD7) e usufruir o bem comum (SD8). E aqui, portanto, cabe uma
ressalva: não há dúvidas de que tudo isso é importante e necessário. O que nos
preocupa é a desvinculação entre estas questões e o modelo de sociedade no qual
estamos inseridos, como se tudo dependesse apenas de uma vontade altruísta
das pessoas, como se pode ver no enunciado seguinte:
[SD9] [...] Acho que é uma das frases de Augusto
Comte quando ele diz que a educação deveria servir
exatamente para fomentar no indivíduo o seu lado...
deixando de lado o egoísmo e partindo para o altruísmo. Ou seja,
partindo para a concepção de que você precisa trabalhar não pela
sua necessidade, mas para o bem comum, o bem coletivo. Essa
cidadania é uma questão dessas (PROFESSOR/A RF,
grifos nossos).
Embora tenhamos na SD9 um discurso que não naturaliza o egoísmo, na
medida em que prega a necessidade e a possibilidade deste transformar-se em
altruísmo, vê-se que o mesmo também não deixa de retomar a Formação
Discursiva Liberal a partir da convocação de uma mudança individual,
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
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espontânea, dependente somente (ou em maior escala) da boa vontade dos
sujeitos.
Neste sentido, pensamos que Dagnino (2004, p. 212) tem razão quando
denomina este processo de “confluência perversa” e alerta para o fato de que, ao
retomar e aprofundar a perspectiva liberal de cidadania, ele reduz esta (a
cidadania) a uma dimensão individualista, moral e caridosa, cujas consequências
podem ser o “encolhimento das responsabilidades sociais do Estado” e a
despolitização contínua da sociedade, situação que já pode ser visualizada
empiricamente em diversas frentes sociais, sobretudo, protagonizadas por
Organizações Não-governamentais (ONG), como demonstram estudos como
os de Montaño (2002), Melo (2014), entre tantos outros.
Atreladas tanto ao que os professores pensam acerca do ensino de
Sociologia (importância e finalidade), como também, à forma como concebem a
cidadania, estão, por um lado, a vinculação entre o ensino de Sociologia e a
“preparação para o exercício da cidadania”, e por outro, a análise acerca do
projeto de sociedade em torno do qual a concepção e a prática dos docentes
participantes deste estudo se articulam. Ambas as questões serão abordadas a
seguir.
Ensino de Sociologia e “preparação para o exercício da cidadania”: uma
relação não exclusiva, mas profunda
Apesar de os professores participantes do estudo destacarem de forma
intensa a relação entre o ensino de Sociologia e a “preparação dos estudantes
para o exercício da cidadania”, muitos deles fazem questão de observar que a
cidadania é uma temática transversal e interdisciplinar e, portanto, deve também
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ocupar espaço nos outros componentes curriculares a fim de que se concretize a
tão esperada “preparação dos estudantes para o seu exercício”.
Lima (2012, p.68-69) observa em seu estudo sobre as concepções de
cidadania dos professores que é comum entre os docentes a compreensão de que
a Sociologia fornece um tipo de conhecimento especial sobre o mundo, sobre a
sociedade, sendo este, portanto, o principal motivo pelo qual ela se relacionaria
de modo direto com a problemática da cidadania.
É, pois, nesta direção que também se apresentam os discursos
materializados nas sequências a seguir. Vejamos:
[SD10] Pra mim ela é essencial, apesar que eu acredito que eu posso
falar em cidadania em qualquer área do conhecimento. Agora,
especificamente, Sociologia e Filosofia são duas áreas que
discutem tudo isso. [...] Em Sociologia a gente vem discutir
justamente essas questões das leis. Como é que eu posso ser um
cidadão sem saber os meus direitos, se eu não conheço as leis que me
protegem, as leis que me garantem que eu tenho esse direito? E aí
Sociologia nos dá esse leque para desenvolvermos as questões de
cidadania (PROFESSOR/A KA, grifos nossos).
[SD11] Eu acredito numa educação transformadora. Não se pode
restringir ou dizer apenas que a Sociologia é a disciplina
responsável por este conhecimento da cidadania ou que
molde o ser como cidadão. O fator que a gente coloca é que a
escola deve ter uma interdisciplinaridade. [...] A Sociologia ela está
presente, ela procura aprofundar e mostrar quais são os aspectos
considerados importantes no desenvolvimento e na
aprendizagem (PROFESSOR/A DS, grifos nossos).
[SD12] [...] Eu vejo que todas as disciplinas elas de alguma forma
contribuem para a construção da cidadania dos alunos. Eu costumo
sempre utilizar Jaime Pinsky e ele traz justamente... (a
Hannah Arendt também), e quando eles falam o conceito de
cidadania, eles dizem que cidadania é o “direito a ter
direitos”. E quando eu levo isso pra sala de aula é pra dizer
aos meus alunos que cidadania é um direito até pra contribuir
nessa construção da cidadania por eles. Se cidadania é o
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
“direito a ter direitos”, nós somos realmente cidadãos? Aí eu
trago realidades: quando a gente vai ao hospital aqui [...] e
falta o médico o nosso direito está sendo garantido? Então,
assim: a minha disciplina ela tem espaço pra trazer esses debates, pra
trazer esses questionamentos. Mas eu acredito que as outras disciplinas
elas também contribuam. Às vezes até de uma forma..., vamos
dizer: de uma forma... Não seria menor, mas que não seja tão vista
como a Sociologia (PROFESSOR/A LF, grifos nossos).
Assim, como se vê nas sequências discursivas acima destacadas, para
alguns professores a cidadania é um tema transversal aos diversos componentes
curriculares, cabendo, pois, à Sociologia dar um tratamento específico (SD10 e
SD12) e aprofundado (SD11) ao mesmo.
Este tratamento aprofundado parece-nos consistir em proporcionar aos
estudantes o conhecimento de seus direitos e deveres legalmente constituídos
(SD10) para que os educandos consigam, no processo de análise da realidade
social e política, verificar se as garantias legalmente constituídas estão sendo
realmente cumpridas no cotidiano (SD12).
Desta forma, o discurso materializado nos enunciados acima dialoga, em
um movimento de identificação-paráfrase, com documentos educacionais
oficiais do Estado brasileiro acerca da vinculação entre o ensino de Sociologia e
a “preparação para o exercício da cidadania”, comungando especificamente com
as OCEM-Sociologia, tanto no que tange a não ser uma relação direta e exclusiva
da Sociologia, como também, quando este documento reconhece a legitimidade
desta relação e acrescenta: “[...] Isso se tem mantido no registro do slogan ou
clichê; quer-se ultrapassar esse nível discursivo e avançar para a concretização
dessa expectativa” (BRASIL, 2006 p. 109, grifo dos autores).
Deste modo, tanto o discurso educacional oficial, como também, os
professores pesquisados defendem a “preparação para o exercício da cidadania”
como uma das mais imediatas razões justificadoras da inserção da Sociologia no
Ensino Médio. Em ambos os casos, da forma como esta vinculação é posta,
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
cria-se a ilusão de que a realidade não é como gostaríamos que fosse porque as
pessoas não conhecem nem exercitam seus direitos e deveres.
Mota (2003, p. 77), analisando a relação entre o ensino de Sociologia e a
problemática da cidadania, observa uma influência do contexto sociopolítico dos
anos 1970 e 1980 nesta ênfase, bem como, defende que, embora exista uma
indefinição acerca do que seja essa cidadania, parece existir certo consenso entre
os documentos educacionais oficiais e o discurso dos professores de que essa
relação se alicerça no tripé: crítica, conscientização e reflexão. No entanto, como
questiona a referida autora:
[...] como pensar a cidadania e a crítica na escola, se nesta se
percebem, cotidianamente, situações que interditam
qualquer possibilidade de exercício da crítica e da cidadania?
É bem verdade que essas situações têm que ser criadas e não
simplesmente aguardadas de alguém que “bondosamente”
irá dá-las. Mas ocorre que algumas garantias são necessárias,
a fim de que os diferentes interesses e modos de construir
espaços críticos e cidadãos na escola não privilegiem
divergências pessoais, acima das questões que de fato
interessam à comunidade escolar (MOTA, 2003, p. 100).
Assim, o discurso dos professores retoma o idealismo clássico e concede
primazia à consciência sobre a realidade. No entanto, mesmo considerando o
papel ativo da subjetividade (e no interior desta a importância do conhecimento)
no processo de reprodução social, esta não pode ser apreendida fora de uma
relação dialética para com a realidade concreta, uma vez que, conforme nos
ensinam Marx e Engels em A ideologia alemã (1998, p.20): “Não é a consciência
que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência”. Ou seja, são
as condições reais, objetivas, que condicionam as possibilidades e os limites de
atuação da subjetividade e, no caso do exercício efetivo da cidadania,
entendemos que tais condições não estão postas nem para a escola, nem para a
disciplina Sociologia, nem para a sociedade capitalista.
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
223
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Claro que, com isso, não queremos negar a importância do
conhecimento acerca dos direitos e do funcionamento da vida social na
qualificação das relações sociopolíticas, no interior das quais, encontra-se o
exercício da cidadania. Também não nos opomos à ideia de que o usufruto de
direitos civis, políticos e sociais tem um papel importante na melhoria prática da
vida das pessoas. E é, pois, aí que reside o problema: a ilusão de que aquilo que
deveria ser tomado, no máximo, como meio (a redução das desigualdades) é
colocado como fim, como horizonte máximo a ser alcançado (TONET;
NASCIMENTO,
2009),
desconsiderando-se,
inclusive,
as
condições
sócio-históricas que, contraditoriamente, criam possibilidades para a superação
do capitalismo, mas não possibilitam a sua regulação e o seu real
aperfeiçoamento (PAULO NETTO, 2007; TONET, 2007; MÉSZÁROS,
2011), como demonstrou a experiência concreta do Estado de bem-estar social e
toda a trajetória da socialdemocracia.
Ensino de Sociologia e “preparação para o exercício da cidadania”: uma
relação fundamental e politizadora
Mesmo sendo um tema transversal aos demais componentes
curriculares,
como
reconhecem
os
professores,
a
cidadania
ganha
aprofundamento a partir do ensino de Sociologia por também ser transversal aos
diversos conteúdos da disciplina (SD13) que, conforme reivindicam os docentes
pesquisados, precisa ser capaz de preparar o cidadão para a realidade (SD14),
despertando-o para a luta (SD15).
[SD13] [...] Eu penso que essa questão realmente da cidadania
permeia todo o processo de discussão em todos os anos da Sociologia.
Inclusive, eu acho que é uma questão própria de pano de fundo, se a
gente entender a cidadania no sentido de conhecer seus direitos, de
conhecer seus deveres, no sentido de participação realmente efetiva na
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
224
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
sociedade. Então eu acho que a Sociologia permeia todo esse
contexto (PROFESSOR/A LF AM, grifos nossos).
[SD14] [...] A Sociologia ela prepara, [...] ela forma o cidadão pra
realidade e ela faz com que você tenha uma formação de
pensamento. [...] Aí, eu acho que a cobrança maior parte pra
Sociologia por ela está como uma base, uma preparação pra
uma formação de pensamento (PROFESSOR/A LF MG,
grifos nossos).
[SD15] É fundamental essa relação do termo cidadania e o
ensino da Sociologia porque realmente a Sociologia promove,
contribui para que as pessoas acordem, vejam melhor quais são os
seus direitos, quais sãos os seus deveres e lutem, reivindiquem,
façam reivindicações para conseguir alcançar uma cidadania
mais fixa, uma cidadania mais eficaz (PROFESSOR/A LF AS,
grifos nossos).
O discurso materializado nos enunciados acima aponta para a
imprescindibilidade da relação entre ensino de Sociologia e “preparação para o
exercício da cidadania”, seja porque se trate de uma questão inerente à disciplina
(SD13) que lida diretamente com a análise da vida social (SD14), seja porque, ao
fazer isso, a Sociologia “[...] contribui para que as pessoas acordem, [...] lutem,
[...] façam reivindicações para conseguir alcançar uma cidadania mais fixa, uma
cidadania mais eficaz” (SD15).
Assim, observa-se que “o sentido missionário ou civilizador” que Sarandy
(2004, p. 121) identifica nos manuais voltados ao ensino de Sociologia também
se faz presente nos discursos dos professores que lecionam esta disciplina no
Sertão Alagoano, os quais, assim como os referidos manuais estudados pelo
autor em discussão, “[...] prevêem (sic) que a simples denúncia das contradições
capitalistas ou do autoritarismo político brasileiro é capaz de promover no aluno
a energia suficiente e direcioná-la às transformações sociais”.
Silva Sobrinho (2011), ao analisar o discurso sobre a obrigatoriedade do
ensino de Sociologia, observa que a vinculação jurídico-política entre a referida
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
225
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
disciplina e o exercício da cidadania carrega consigo um forte viés conservador,
na medida em que busca limitar as possibilidades formativas do conhecimento
sociológico aos marcos daquilo que é julgado pelo poder dominante como o
conhecimento “necessário”.
Parece-nos, pois, ser também nesta direção que se encontram os
discursos dos docentes materializados nas sequências discursivas acima. Isto é,
como se tem mostrado frequente ao longo deste estudo, a convocação da
cidadania não se dá apenas como meio (SD13), mas também, como horizonte
societário (SD15) – e não apenas imediato. Como já comentado em outros
momentos, esta perspectiva revela-se bastante reformista, podendo ter
implicações sérias nas possibilidades formativas da disciplina Sociologia. Isto
porque, embora não haja uma relação direta entre a concepção societária dos
professores e a perspectiva ideopolítica dos estudantes, não se pode negar o peso
dos
fins
educacionais
na
escolha
e
desdobramento
dos
meios
didático-pedagógicos (conteúdos, abordagem, etc.), o que, em última, tem
implicações diretas na formação intelectual dos educandos.
Isso não quer dizer, claro, que caiba ao ensino de Sociologia promover
uma revolução socialista a partir do processo de escolarização. Defender isso
seria desconhecer tanto as contribuições do materialismo histórico-dialético
acerca da produção e reprodução da vida social (LUKÁCS, 2013), como também
desconsiderar todo o acúmulo teórico, inclusive de autores não marxistas, como
é o caso de Bourdieu e Passeron (2008), acerca das limitações sobre as quais se dá
o trabalho didático-pedagógico no âmbito da educação escolar. O que estamos
analisando aqui é a contradição de um discurso acerca de uma disciplina escolar
dedicada à desnaturalização da realidade social, mas que não considera (o que
não significa defender) a possibilidade histórica de uma ordem social para além
do sistema existente.
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
226
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Ensino de Sociologia e “preparação para o exercício da cidadania”: uma
relação comprometida com o aperfeiçoamento da ordem social vigente
Como já foi exposto até então, há entre os docentes pesquisados uma
preocupação de que o ensino de Sociologia proporcione aos estudantes uma
leitura da realidade social que tanto os possibilitem compreender, de forma mais
adequada, como a sociedade funciona, como também, que os ajudem a tomar
parte nos processos e decisões sociais e políticas.
Neste sentido, destaca-se entre os professores uma concepção de que o
conhecimento das Ciências Sociais deve “ir além” da desnaturalização e do
estranhamento em si da realidade social. No entanto, como já apontamos
durante a análise de algumas das sequências discursivas selecionadas, observa-se
que o conhecimento das Ciências Sociais defendido e a expectativa de
intervenção social dele decorrente não se articulam com a superação da ordem
social vigente, mas somente com o aperfeiçoamento desta. Como se pode ver
nos enunciados abaixo (SD16 a SD17) acerca da concepção dos professores
sobre a sociedade capitalista, este sistema social representaria tanto o fim da
História (já que não é possível superá-la), como também, o projeto societário
mais atraente e avançado possível.
[SD16] Olhe só: eu digo que geralmente quando a gente olha
pra todo o desenvolvimento econômico eu não vejo que a gente
vai conseguir se desvincular dessa sociedade capitalista. [...] Até
porque a gente vê que o problema não está só no capitalismo, mas é
como o capitalismo é feito. Por que a gente tem exemplos de
outros países que são capitalistas..., né? [...] A gente tem exemplo
do Japão que é um país capitalista; extremamente capitalista.
Mas aí você vai pra estrutura educacional, você vai pra
estrutura de trabalho, é diferente. E não é capitalista? Não tem
como a gente voltar no tempo mais. Não adianta a gente dizer: Não
compre! Não faça! Não venda! Não venda o seu trabalho!
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
227
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Ele vai precisar comer. E aí? Ele vai precisar vender o seu
trabalho. O que a gente precisa é realmente focar nessa discrepância que
há da desigualdade social no Brasil (PROFESSOR/A KA, grifos
nossos).
[SD17] Na verdade, eu não vejo a possibilidade de vencer o
capitalismo pela forma como as pessoas estão vivendo, a tecnologia,
enfim, tudo está contribuindo para que o capitalismo se aperfeiçoe e se
aprofunde cada vez mais. Então, eu acredito que não há,
realmente, como pensavam os nossos teóricos defensores do
socialismo... Eu acho que é muito difícil voltarmos... Sairmos do
estágio atual para um estágio de socialismo. [...] Na verdade,
não sei se estou sendo pessimista... Acredito, sim, na
mudança. [...] Acredito no potencial das pessoas de mudarem o espaço
em que vivem, a sociedade em que vivem, mas que essa mudança não vai
além dos muros do capitalismo. O capitalismo vai prevalecer
(PROFESSOR/A AS, grifos nossos).
[SD18] Eu não acredito nessa questão de transcender a sociedade
capitalista. Eu não... Realmente não vejo..., não tenho essa
utopia. Eu penso que a gente precisa trabalhar nessa que a gente tem.
Nos desafios que a gente tem... No mundo que a gente vive
(PROFESSOR/A AM, grifos nossos).
Os discursos materializados nos enunciados anteriores (SD16 a SD18)
reconhecem que vivemos em uma sociedade desigual e com inúmeros
problemas sociais, mas não estabelecem uma relação causal e intrínseca entre
essas mazelas e o projeto societário vigente. Como se pode ler textualmente na
SD16: “[...] o problema não está só no capitalismo, mas é como o capitalismo é
feito”. Ora, nenhuma experiência historicamente conhecida do capitalismo, nem
mesmo em sua fase menos brutal, que ficou conhecida como “capitalismo de
rosto humano”, conseguiu retirar dele a exploração do trabalhador e a busca pelo
lucro, visto que, sem essas características, ele já não pode ser o que é. E sobre o
Japão, citado como exemplo na SD16, apesar de o País ainda ser considerado a
quarta maior economia do mundo, há décadas que ele vem apresentando sinais
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
228
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
de esgotamento, seja pelo crescente endividamento público e privado8, o baixo
crescimento econômico9, a elevação da pobreza relativa10, etc., seja pelo padrão
de produção e consumo baseado na cultura do descartável.
Assim, estes discursos naturalizam as desigualdades sociais que só
podem ser, no máximo, reduzidas (SD16), aperfeiçoadas (a gente precisa
trabalhar nessa que a gente tem – SD18) e retomam a Formação Discursiva
Neoliberal do “cada um faça a sua parte” ao focarem na solução individual como
alternativa: “[...] Acredito no potencial das pessoas de mudarem o espaço em que
vivem, a sociedade em que vivem, mas que essa mudança não vai além dos
muros do capitalismo” (SD17). E nesse movimento, como observa Cavalcante
(2007, p. 90): “a transmutação de algo criado pelo homem em algo natural retira
do ser humano a crença na possibilidade de transformação”.
Ainda sobre os enunciados anteriores, um fator curioso é que em dois
deles (SD16 e SD18) a superação da sociedade capitalista representaria um
retorno, um voltar no tempo (sinalizando atraso), e não, um ir além. E,
justamente por isso, seria tão difícil a superação de um sistema cuja marca não é
as mazelas que criticam, e sim, o progresso econômico e o avanço tecnológico
que parece ser propriedade do capitalismo, e não, resultado do trabalho humano
por este explorado. Com isso, fica implícita a ideia de que o capitalismo é o fim
da história, entendendo-se aqui por implícito aquilo que, embora não seja dito de
forma direta e clara pelo locutor, é detectável pelos rastros deixados no dizer.
8
BBC Brasil. Dívida de países atinge US$ 199 trilhões e ameaça economia global. Disponível
em:
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150212_relatorio_mckinsey_ru.
Acesso em: 26 jun. 2015.
9
Portal G1. Japão sai da recessão, mas crescimento fica abaixo do esperado. Disponível em:
http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/02/japao-sai-da-recessao-mas-crescimento-ficaabaixo-do-esperado.html. Acesso em: 26 jun. 2015.
10
BBC
Brasil.
Número
de
pobres
no
Japão
cresce...
Disponível
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141111_pobreza_japao_et_pai.
em:
Acesso
em: 26 jun. 2015.
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Assim, como observa Cavalcante (2007, p.78): “[...] embora remeta ao dito,
mantendo com ele uma relação de dependência para significar, o implícito é de
responsabilidade do interlocutor, pois é trabalho de interpretação”.
Já para outros professores, a insuperabilidade do capitalismo não se
apresenta como algo sobre o qual estejam tão convictos, conforme vimos ao
analisar os discursos materializados nos enunciados anteriores.
[SD19] Olha, quem vem de Cuba pra cá não conta boas
histórias. Não sei se o capitalismo... Claro, a gente sabe que está
em crise... Não sei se pode levantar outro sistema. Com
certeza, há de se levantar outros sistema porque se não se
levanta outro sistema pode vir o caos. Tememos esta questão. Por
que nenhum sistema nem outro até então provou que é
capaz (PROFESSOR/A AE, grifos nossos).
[SD20] O capitalismo é um sistema extremamente
inteligente. [...] A queda dos outros sistemas sociais ela aconteceu
porque esses sistemas eram inflexíveis à mudança. Já o capitalismo está
automaticamente o tempo todo se modificando para se adaptar a uma
realidade. Se você me perguntar se o capitalismo de hoje é o
mesmo que a gente via há 30 anos atrás ele é totalmente
diferente. Ele tem uma roupagem diferente, mas em linhas gerais o que
continua é a exploração do trabalhador. [...] Mas eu acredito que é
possível uma criação como essa, uma mudança social como
essa, mas que eu, nem você, nem meu filho, nem meu neto
vai ver (PROFESSOR/A RF, grifos nossos).
[SD21] É muito difícil você pensar nesse futuro se apenas uma
parcela dessa sociedade está tornando-se cidadão crítico e reflexivo, capaz
de lutar pelos direitos, capaz de se inserir como cidadão crítico,
de refletir sobre os seus atos e suas ações e a outra parcela
não está nem um pouco preocupada. Entende-se ainda que
dentro das escolas não são todos os professores (com
relação a disciplina Sociologia) preocupados em fazer uma
compreensão mais direta, tentando ministrar de forma clara
os conteúdos e tentando fazer esse molde (PROFESSOR/A
DS, grifos nossos).
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
230
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Estes docentes estabelecem uma conexão direta entre o capitalismo e as
mazelas vivenciadas na vida social e no mundo do trabalho, embora seus
discursos oscilem entre a vontade da mudança e a falta de clareza
teórico-ideológica acerca dos rumos dessa mudança, seja porque o que
conhecem como alternativa (o chamado “socialismo real”) não lhes parece
representar o desejado (SD19), seja porque o próprio capitalismo tem a
capacidade de se renovar constantemente (SD20), seja ainda porque esta
mudança dependeria de uma consciência social e cidadã que não se tem.
Conforme pode-se ler na SD19, a insatisfação para com as duas
alternativas historicamente conhecidas faz com que o/a docente fique
desnorteado/a acerca dos rumos societários a seguir, o que se configura em algo
bastante comum após a queda do muro de Berlim, em 1989, e o triunfo do
neoliberalismo, acontecimentos históricos que contribuíram fortemente para a
disseminação do chamado “pensamento único” e para o fortalecimento da
ideologia neoliberal, alicerçada na defesa da falta de alternativas ou, no máximo,
na crença em alternativas desvinculadas do pensamento marxista.
Algo parecido se pode ver no enunciado da SD20, quando o/a docente,
além de comparar o capitalismo com os regimes representantes do chamado
“socialismo real”, responsabiliza a queda destes últimos pela inflexibilidade à
mudança, uma explicação que se alinha mais com as informações midiaticamente
divulgadas acerca destes regimes do que com análises mais sérias acerca do
funcionamento dos mesmos. Mas chama a atenção o fato de que, ao final do
enunciado, o/a docente declara acreditar na possibilidade de uma nova
sociedade (uma criação como essa, uma mudança social como essa), embora não
deixe claro que criação nova seria essa. No entanto, em uma análise de conjunto,
pensamos ser possível identificar esta nova sociedade, visto que, como ele/a
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
231
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
destaca em outro momento, citando um trecho de um pensamento de Mahatma
Gandhi com o qual diz se identificar e colocar como guia de ação:
Não posso antever o dia em que não existam ricos e pobres
em uma sociedade. Mas posso imaginar o dia onde os ricos deixarão
de enriquecer as custas dos pobres e os pobres deixarão de invejar os ricos.
Mesmo no mais perfeito mundo imaginável é impossível evitar
desigualdades, mas podemos e devemos evitar conflitos e amarguras
(GANDHI apud PROFESSOR/A RF, grifos nossos).
Assim, como se pode ver, esta nova sociedade não se identifica com o
socialismo nem com o comunismo, visto que as desigualdades sociais são
naturalizadas, a crítica aos ricos é caracterizada como inveja e os conflitos podem
ser evitados. Esta criação nova, portanto, longe de representar uma mudança na
estrutura socioprodutiva alicerçada na propriedade privada dos meios
fundamentais de produção, na existência de classes sociais e na consequente
exploração do trabalho (PAULO NETTO, 2007; TONET; NASCIMENTO,
2009), representa uma mudança subjetiva, uma tomada de consciência, quase
uma conversão religiosa que, ao operar-se, seria capaz de criar um “novo”
mundo no qual as desigualdades têm o poder mágico de existirem sem que haja
conflitos e amarguras.
Já na SD21, o discurso materializado dialoga com a desculpa popular do
“se todos fizessem”, o que coloca a possibilidade de uma sociedade também no
âmbito do espontaneísmo, da boa vontade. Claro que, como já observamos em
outros momentos, não se pode ignorar o papel imprescindível da subjetividade
na operacionalização de qualquer mudança, sobretudo, deste nível. No entanto,
o que chama a atenção, tanto neste enunciado, como também, em outros, é a
centralização das atitudes e comportamentos individuais na realização da
mudança, retomando o idealismo popular de que “a mudança começa dentro de
cada um de nós”.
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
232
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Também aqui, como nos momentos anteriores, não é possível afirmar a
existência de qualquer diferença substancial entre os discursos dos professores
comparando-se variáveis como formação, tempo de magistério, tempo
lecionando a disciplina, vínculo empregatício ou condições de trabalho, o que,
mais uma vez, reforça a tese de que, embora o grupo pesquisado seja
heterogêneo, em muitas dessas questões, seus discursos dialogam e
identificam-se ideologicamente.
Considerações finais
Neste trabalho, ao analisarmos o discurso dos professores que lecionam
Sociologia no Sertão Alagoano acerca da “formação de estudantes para o
exercício da cidadania” e a relação entre esta e a disciplina que lecionam,
mostramos que o discurso destes sujeitos retomam a perspectiva defendida pelo
discurso educacional oficial de defesa da ordem social vigente como a única
alternativa societária viável – mesmo que carente de aperfeiçoamento.
Ao defender que a cidadania deve e pode ser “exercida” no interior da
ordem social vigente, e que a Sociologia é um instrumento indispensável para tal,
o discurso dos professores mistifica a realidade, ocultando o fato de que para se
exercitar, praticar, por algo em movimento, é preciso já tê-lo. E como sabemos,
faltam condições básicas para tal exercício, as quais estão ausentes não por mero
desvio de percurso, mas porque são incompatíveis com o projeto de sociedade
em desenvolvimento que o presente discurso busca, no máximo, aperfeiçoar,
uma vez que nele é possível conciliar a condição de cidadão com o status de
dominado, miserável, despossuído.
Deste modo, ressalvadas as diferenças, os discursos materializados nas
sequências analisadas não apontam para o rompimento com o capitalismo, e sim,
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
articulam-se ora com a perspectiva neoliberal de que é impossível ir além da
ordem social vigente, ora com o pensamento socialdemocrata de que mudanças
pontuais e por dentro da ordem controlarão o capitalismo e o transformarão em
algo novo.
Em ambas as perspectivas, a subjetividade ocupa um lugar central no
processo de mudança social e, justamente por isso, a atividade educativa
escolarizada é tão requerida e destacada como instrumento principal na
construção de uma sociedade dita melhor.
E é, pois, neste particular que precisamos ficar atentos à ideologia
dominante e seus efeitos discursivos em torno da ideia de educação como a
porta para a mudança social, para a construção de um mundo melhor, e da
cidadania como horizonte societário em torno do qual a prática educativa, e no
caso específico em estudo, o ensino de Sociologia, deve articular-se. Isto porque,
buscando produzir efeitos discursivos de consenso (já que a atividade educativa
tem importância reconhecida por “todos” e seu papel no processo de
reprodução social parece inegável), a disseminação da educação como
responsável pela mudança social camufla as desiguais condições sobre as quais se
dá a prática educativa, bem como, interdita a Formação Discursiva
Revolucionária, segundo a qual não pode haver mudança substantiva sem a
alteração das relações socioprodutivas de dominação sob as quais a sociedade
capitalista está alicerçada.
Como já destacamos em outro momento deste texto, reafirmamos que
não estamos aqui argumentando em favor de que o ensino de Sociologia deveria
estar diretamente voltado a uma revolução socialista, mesmo porque não
defendemos ser este o objetivo de uma disciplina escolar nem acreditamos ser a
escola uma instituição revolucionária.
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
Também não estamos fazendo aqui qualquer juízo de valor acerca da
forma como os professores do Sertão Alagoano lidam com a referida disciplina a
ponto de precisarmos propor o que julgaríamos ser a maneira adequada de
conduzir a reflexão sociológica em sala de aula. Pelo contrário, o que
procuramos fazer ao longo de nossa pesquisa foi descrever e analisar o discurso
dos docentes sobre a relação entre ensino de Sociologia e exercício da cidadania,
mostrando que, nessa vinculação, a cidadania aparece não apenas como meio
para a construção de uma sociedade melhor, mas também como o horizonte
societário máximo a ser alcançado.
É, pois, justamente nesse ponto que reside a nossa crítica, a saber: se é a
desnaturalização da realidade social a razão de ser do ensino de Sociologia, como
é colocado oficial e sabiamente pelas OCEM-Sociologia (BRASIL, 2006) e
amplamente defendido pelos cientistas sociais, por que o capitalismo, que é uma
criação histórico-social, aparece no discurso dos professores que lidam com a
disciplina como, no máximo, passível de aperfeiçoamento? Em nosso entender,
sendo uma disciplina que se propõe a desnaturalizar a realidade social, o não
reconhecimento da possibilidade de ir além do capitalismo (o que, mais uma vez
reafirmamos, não quer dizer a necessidade de defender o comunismo) é uma
contradição em termos, pois acaba legitimando como natural algo que é
historicamente construído e, portanto, passível de superação.
Por fim, destacamos que a consideração destes aspectos na lida com a
disciplina Sociologia parece-nos indispensável para que o ensino das Ciências
Sociais no âmbito do Ensino Médio extrapole, de fato, como dizem os
professores pesquisados, o senso comum e supere a superficialidade das
aparências, contribuindo para a formação de um pensamento verdadeiramente
crítico. Pois, embora concordemos com Moraes (2014) que a criticidade
teórico-analítica não constitui propriedade privada do marxismo, não podemos
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
235
Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
deixar de ressaltar que, a nosso ver, é no interior do materialismo
histórico-dialético que a preocupação com a criticidade analítica ganha
radicalidade, isto é, busca ir à raiz, aos fundamentos da vida social e dos seus
desdobramentos, representando, por isso, o padrão mais elevado de
conhecimento acerca do mundo dos homens e, justamente por isso, maiores
possibilidades de transformação deste.
Referências
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução. Petrópolis, RJ: Vozes,
2008 (tradução: Reynaldo Bairão).
BRASIL. Constituição política do Império do Brazil, de 25 de março de 1824.
Disponível
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Resumo:
Ensino de sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação comprometida com a ordem
social vigente
O artigo analisa o discurso de professores de Sociologia acerca da formação de
estudantes para o exercício da cidadania e do lugar da referida disciplina neste
processo. O estudo se deu a partir da Análise do Discurso filiada ao filósofo francês
Michel Pêcheux (1938-1983) e fez uso de entrevistas semiestruturadas e aplicação de
questionários junto a 10 professores que lecionam Sociologia no Sertão Alagoano. Ao
longo do texto, demonstra-se que a relação entre o ensino de Sociologia e o discurso
de “preparação para o exercício da cidadania” é vista pelos docentes como algo não
exclusivo, porém, como uma relação profunda, fundamental e politizadora. Por fim,
conclui-se que o discurso dos professores articula-se mais com o aperfeiçoamento da
ordem social vigente do que com a superação radical da forma de sociabilidade
capitalista.
Palavras-chave: Ensino de Sociologia. Cidadania. Emancipação humana.
Abstract:
Teaching of sociology for exercise of the citizenship: a relationship committed with the order social current
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
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Ensino de Sociologia para o exercício da cidadania: Uma relação
comprometida com a ordem social vigente
Valci Melo
The article analyzes the discourse of teachers of Sociology about the training of
students for citizenship and the role of the said discipline in this process. The study
gave framework of Discourse Analysis affiliated with the French philosopher Michel
Pêcheux (1938-1983) and was done trough sfor semi-structured interviews and
questionnaires carried out with 10 teachers of Sociology in the Hinterland Alagoas.
Throughout the text, it is shown that the relationship between the teaching of
Sociology and discourse of "preparation for exercise of the citizenship" is seen by
teachers as something not unique of Sociology, however, as a deep, fundamental and
politicizing relationship. Finally, it is concluded that the teachers' discourse is
articulated more with the improvement of social order current than with the radical
overcoming the capitalist form of sociability.
Keywords: Teaching of Sociology. Citizenship. Human emancipation.
Crítica e Sociedade: revista de cultura política, Uberlândia, v. 7, n. 2, 2017
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