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Recebido em: 20/08/2019
Aprovado em: 24/08/2019
Editor Respo.: Veleida Anahi - Bernard Charlort
Método de Avaliação: Double Blind Review
Doi: http://dx.doi.org/10.29380/2019.13.09.06
Análise do papel da Educação Kantiana para formação do homem moderno: princípios para constituição
da racionalidade.
EIXO: 9. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS. EDUCAÇÃO PARA A PAZ.
RODRIGO PEREIRA
Educon, Aracaju, Volume 13, n. 01, p.1-11, set/2019 | www.educonse.com.br/xiiicoloquio
Os textos escritos por Kant se encontram numa encruzilhada epistemológica entre o Racionalismo e
o Empirismo Inglês com representação em pensadores importantes para a modernidade como
Descartes, Bacon e Hume. Nesse momento de síntese e construção teórica, Kant situa-se entre os
fundadores do Idealismo Alemão que gerará influência em pensadores de outras épocas como Hegel
e Marx. Na sua Obra: Sobre a Pedagogia, sobre a qual nos debruçaremos, o autor faz uma análise
sobre os princípios, fins e práticas para a formação do homem moderno e, por conseqüência, os
princípios para a formação das futuras gerações. Esta análise ainda necessita registrar a
contemporaneidade de Kant com autores como J.J Rousseau e situar seu pensamento no mesmo
plano, tempo, espaço onde defesas por educação racional, teleológica e moral estavam, sendo
desenvolvidas por outros intelectuais na Europa.
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INTRODUÇÃO
Uma análise sobre os escritos de Kant e sua biografia podem dar a dimensão do seu legado para a
educação, apesar de para muitos pesquisadores e contemporâneos Kant não foi considerado um
educador, embora suas ideias tenham influenciando muito o campo da educação, suas críticas sobre o
processo educacional e sua perspectiva sobre o comportamento e ideal humano foram valiosas para
repensar a educação, visto que constantemente valorizava a formação do indivíduo e principalmente
por ter defendido uma educação familiar, considerada por ele a base fundamental para o futuro
cidadão, uma educação que faria do indivíduo um homem de bem e moralmente estruturado.
A valorização da educação familiar não traduziria essa educação com a escolar, pois a finalidade era
diferente: na escola o ideal de humano e cidadania estavam presente, haveria ali a formação do
cidadão para a vida, o trabalho e para a humanidade. A escola, para ele, possuía uma função
específica bem como características e ações que se estendiam para além de seus muros. A educação
em Kant é uma formação para a vida, educar o homem para ser cidadão, um cidadão moralmente
comprometido com o bem-estar do grupo no qual ele esteja inserido. Sobre a educação, destacamos
esta afirmação do autor (2002, p. 13):
As crianças são mandadas cedo à escola, não para que aí aprendam
alguma coisa, mas para que aí se acostumem a ficar sentadas
tranqüilamente e a obedecer pontualmente àquilo que lhe é mandado, a
fim de que no futuro elas não sigam de fato e imediatamente cada um
de seus caprichos.
Nos seus escritos a educação não e tratada como restrita ao campo cognitivo, mas nela se discute a
formação e preparação do homem total, para a vida através do desenvolvimento da conduta moral,
além disso, ele reconhecia que a pessoa deve ter o seu papel social definido e a educação tem como
uma de suas metas promover ao indivíduo para ascender socialmente e atuar como pessoa.
A formação educacional quando desenvolvida precisa resolver a questão da assimilação do
conhecimento pela pessoa e só depois projetar-se para o campo social, quando o indivíduo terá sua
conduta determinada. Uma conclusão é comum no contexto do século XVIII para os autores
identificados como Contratualistas: o homem é a única criatura que pode ser educada e precisa ser
educada.
Na argumentação do autor não somente a finalidade da educação deve ser alvo de reflexão ou base
para formulação de proposições; o método mais adequado para educar o indivíduo também é
pensado por ele, questionando sobre a condição exequível para formação do indivíduo independente
da classe social ou pertencimento cultural. A educação se propõe a formação da totalidade do
indivíduo e por isso não se limita ou deve sofrer influência do campo econômico, pois a educação
não está estruturada para formar o homem apenas para o trabalho e sim para a totalidade da
experiência da vida social.
É importante destacar, à guisa de introdução, que o período vivido por Kant era um período de
transição e por isso não havia ainda sido construído um campo teórico específico que contemplasse a
especificidade da educação e de seus processos metodológicos. Assim, registra-se o argumento de
Cambi (1999, p.21)
A história da pedagogia no sentido próprio nasceu entre os
séculos XVIII e XIX e desenvolveu-se no decorrer deste último
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como pesquisas elaboradas por pessoas ligadas à escola,
empenhadas na organização de uma instituição cada vez mais
central na sociedade moderna (para formar técnicos e para
formar cidadãos), preocupadas portanto, em sublinhar os
aspectos mais atuais da educação instrução e as idéias mestras
que haviam guiado seu desenvolvimento histórico. A educação
defende como formação do homem, amadurecimento do
indivíduo, consecução da sua formação completa ou perfeita.
Como um dos objetivos principais da educação, forma a conduta do homem não poderia prescindir a
qualquer outra preocupação. Assim sendo, a educação pública tinha uma importância superior à
educação doméstica, em função de apresentar elementos formadores do cidadão. Esse modelo e essa
finalidade da educação não correspondiam, na época, aos interesses dos meios de produção.
A pedagogia Kantiana buscava respostas para os problemas que a própria sociedade daquela época
enfrentava. E tais problemas, originados do movimento geral da própria sociedade, manifestava-se na
educação como crise de valores. Em função disso, é possível descrever a educação de Kant como a
educação no âmbito da moral. Tratava-se, para ele, de definir um “novo homem” (novo aluno, novo
cidadão, por exemplo) para uma realidade que não era mais correspondente aos ideais e práticas de
uma moral aristocrática.
De maneira geral, seus escritos permitiram o acesso a um universo de construção metafísica que
influenciou as gerações posteriores nos momentos de análise, compreensão e construção de
referenciais práticos sobre processos pedagógicos e, para além, sobre princípios para a formação do
homem. Os textos escritos por Kant se encontram numa encruzilhada epistemológica entre o
Racionalismo e o Empirismo Inglês com representação em pensadores importantes para a
modernidade como Descartes, Bacon e Hume. Nesse momento de síntese e construção teórica, Kant
situa-se entre os fundadores do Idealismo Alemão que gerará influência em pensadores de outras
épocas como Hegel e Marx. É importante situar este intelectual no tempo da sua obra como forma de
melhor compreendê-lo e assim conseguir fazer assertivas sobre o seu pensamento.
O que desejamos construir neste momento é uma reflexão sobre a educação trazida por I. Kant na sua
Obra: Sobre a Pedagogia, onde o autor faz uma análise sobre os princípios, fins e práticas para a
formação do homem moderno e, por conseqüência, princípios para a formação das futuras gerações.
Esta análise ainda necessita registrar a contemporaneidade de Kant com autores como J.J Rousseau e
situar seu pensamento no mesmo plano, tempo, espaço onde defesas por educação racional,
teleológica e moral estavam, sendo desenvolvidas por outros intelectuais na Europa. Analisar a
educação em Kant é um desafio que nos propomos a fazer tendo consciência do risco de fazer
incursões sobre o pensamento de um autor ao mesmo tempo objetivo, mas com um alto grau de
complexidade como o é Immanuel Kant.
SOBRE O CONCEITO E OS PROCESSOS DE EDUCAÇÃO
Considerando o contexto da obra kantiana voltada a educação, a saber, o livro Sobre a Pedagogia
(1803) que utilizamos como base para a construção desse texto, é possível afirmar que o sistema
capitalista já em expansão exigia uma educação voltada para o trabalho produtivo, se aproximando
dos ideais utilitaristas, o que não correspondia aos ideais kantianos de educação. Para Kant, as
características culturais e economicistas da sua época modificaram a conduta dos indivíduos, levando
o autor a questionar: O que é educação? Qual seria o verdadeiro papel da educação em uma
sociedade em transformação? O verdadeiro papel da educação na perspectiva kantiana era formar o
homem como um todo, pois a formação da consciência individual será medida pelo nível de
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responsabilidade social, só assim será legítima.
A educação por si só se apresenta como um campo complexo. A educação no século das luzes, em
um período de transição torna a análise ainda mais específica dado o conjunto de possibilidades
apresentadas por autores no mesmo período. Assim, escrever sobre Kant, principalmente sobre sua
concepção de educação e moral, é uma tarefa difícil devido complexidade que se encontra em seus
escritos; pela exigência de profundidade da reflexão. Nessa época, Kant amadurece a concepção de
que a organização social da Alemanha estava bastante distante dos ideais do Esclarecimento devido
ao despotismo político e à falta, no sistema educacional de seu país, de princípios universais
advindos de uma moralidade apriorística, os quais, aplicados ao processo educativo levassem os
homens à liberdade e à felicidade.
É, portanto, inserido nesse pensamento que Kant lançou uma pergunta que até hoje faz pensar: “[...]
como poderíamos tornar os homens felizes se não os tornamos morais e sábios?” (KANT, 2002a, p.
28). Para que os homens se tornem morais e sábios, e, portanto, felizes, é preciso que sejam
educados. Sobre isto Kant (2002, p. 17) escreveu:
Com a educação presente, o homem não atinge plenamente a
finalidade da sua existência. Na verdade, quanta diversidade no
modo de viver ocorre entre os homens! Entre eles não pode
acontecer uma uniformidade de vida, a não ser que ajam
segundo os mesmos princípios, e seria necessário que esses
princípios se tornassem como que uma segunda natureza para
eles. Podemos trabalhar num esboço de educação mais
conveniente e deixar indicações aos pósteros, os quais poderão
pô-las em prática pouco a pouco.
Para Kant atingir essa maturidade, foi necessário percorrer as variadas formas de conhecimento,
principalmente recorrer à história como fonte de informações, e a minuciosas observações de como
ela conduzia a humanidade, bem como entender como a humanidade reagia às contradições geradas
pelo surgimento de novas idéias.
Na visão deste autor, o homem precisa assumir o compromisso moral e pensar em uma sociedade
que possa zelar pelos bons costumes, resultando em comportamentos disciplinados, conscientes das
obrigações sociais dos seus direitos e da relação com o outro, pensando de forma coletiva.
A educação em Kant prioriza a formação individual, mas a atuação deve ser como pessoa. Kant,
embora seja considerado o grande representante Iluminista, não levou às últimas conseqüências os
postulados racionais e revolucionários desencadeados pelas luzes, operando, ao contrário, um certo
recuo em direção à metafísica tradicional e aos postulados conservadores antigos.
Um dos acontecimentos históricos que contribuiu de forma positiva para a educação é a Reforma
Religiosa do século XVI e seus resultados, cujas estruturas fortaleceram o surgimento do
Protestantismo. Na Alemanha Reformada a educação tendeu a tomar caráter mais estritamente
nacional, pois a Reforma teve, como efeito, a significação de um rompimento espiritual com o
universalismo cristão, o que a leitura da Bíblia em língua alemã revelava desde o começo.
Na Alemanha reformada foi possível ver o nascimento de um grande movimento de formação
educacional, sobretudo pela condição de Esclarecimento que seria advinda por intermédio da
formação educacional. O ato de ler, de compreensão para além das escrituras poderia elevar o
indivíduo alemão ao nível do desenvolvimento moral capaz de gerar aperfeiçoamento na sociedade.
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Esta perspectiva não apenas se revelou no contexto alemão, mas se estendeu para boa parte do
ocidente. Sendo assim, o aspecto revolucionário da educação defendida e vislumbrada por Kant se
tornara real.
Cambi (1999, p. 362), argumentando sobre o ideal de educação e seus objetivos na perspectiva do
século XVIII e mais especificamente m Kant, destacava que a intenção da educação, para Kant, é
“[...] transformar a animalidade em humanidade” pelo desenvolvimento da “razão”, tal objetivo,
porém, não se atinge “por instinto”, mas somente pela “ajuda de outrem”. Quando Kant (2002, p. 12)
se refere à pedagogia, tem a nítida convicção de que a disciplina transforma a animalidade em
humanidade e ao se analisar a história, em seus períodos transitórios, constata-se que uma geração
educa a outra. Portanto, para Kant, a disciplina é o que impede o homem de desviar-se do seu
destino, de desviar-se da humanidade através das suas inclinações animais. Então, a disciplina
prepara o caminho para a parte positiva da educação, que é a formação ou a cultura. Esse modo de se
referir à disciplina e à cultura como negativa e positiva é uma distinção que ocorre em todos os
lugares nos escritos de Kant.
Para Kant (2002, p. 16-17), educar é pensar em desenvolver a natureza humana e superá-la, elevando
o homem à condição racional, superando seus instintos e paixões que agindo, limitavam o homem à
condição de natureza, por vezes, bárbara:
“É entusiasmante pensar que a natureza humana será sempre melhor
desenvolvida e aprimorada pela educação [...]”, pois só pela educação o
homem pode alcançar a felicidade futura. Essa é a idéia posta pelo
Iluminismo kantiano. “Uma Idéia não é outra coisa senão o conceito de
uma perfeição que ainda não se encontra na experiência”.
Assim, Kant argumenta que “[...] a idéia de uma educação que desenvolva no homem todas as suas
disposições naturais é verdadeira absolutamente”. Esse argumento mostra que Kant concebe uma
filosofia da educação ou, como ele próprio denomina, uma “teoria da educação”. Por meio das
assertivas de Kant, percebe-se que as possibilidades dos homens marcam o Iluminismo, pois, é nele
que se tinham presentes o desejo e a crença nos poderes da razão.
Essas marcas do processo de educação sobre o homem significa que os conhecimentos produzidos
pela espécie humana devem ter como finalidade não apenas garantir, como também desenvolver, as
disposições naturais do homem para a razão e para a liberdade. Então, o ato de educar e o seu
desenvolvimento não podem ser mecânicos, mas baseados em uma conduta racional.
“É preciso colocar a ciência em lugar do mecanicismo, no que
tange à arte da educação; de outro modo, esta não se tornará
jamais um esforço coerente; e uma geração poderia destruir tudo
o que uma outra anterior teria edificado” (KANT, 2002a, p. 22).
Para Souza Junior (2005) , o fundamental da educação proposta por Kant é que ela tem como
objetivo a moralidade. A moralidade diz respeito ao caráter e “[...] se se quer formar um bom caráter,
é preciso antes domar as paixões” (KANT, 2002, p. 86). O sujeito moral é aquele que sabe moderar
as suas inclinações, as suas tendências, suportando e acostumando-se a suportar, a recusar, a resistir a
elas, não as deixando se transformar em paixões. Para a efetivação dessa conduta, cumpre ao
educando aprender, mas não em quantidade apenas e sim com profundidade. “Vale mais saber
pouco, mas sabê-lo bem, que saber muito, superficialmente” (KANT, 2002a, p. 87). Por conseguinte,
uma ação tenderá a ter mais sucesso se o homem estiver dotado de um conhecimento sólido. Dessa
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forma, na definição kantiana, a educação deve formar o homem e levá-lo a sua própria dignidade,
que consiste em torná-lo capaz de escolher fins e propósitos que sejam bons e universais para todos.
Esse é o projeto de uma sociedade esclarecida, segundo Kant.
SOBRE O PAPEL DA DISCIPLINA NA FORMAÇÃO DO INDIVÍDUO
Esta interpretação da educação também pode ser entendida em duas instâncias: a formação e
disciplina do corpo e da mente, ou da consciência. De forma objetiva destaca-se a finalidade central
da educação que se dá através da formação moral: retirar do homem a selvageria inerente à espécie e
a condução à uma vida dentro dos domínios da moral e da ética ou costumes sociais. Esta última
abordagem será mais precisamente discutida em outras obras do autor. Como autor pertencente a
uma escola idealista, Kant interpreta a formação do homem vinculada à concepção de formação
cosmopolita com base numa perspectiva racional e definidora dos comportamentos e juízos do
homem frente a vida social.
Diferente da dimensão instintiva presente nos animais, a necessidade de cuidado e direcionamento
presente no homem, é, sem dúvida, uma herança da espécie que ele levará para sua vida adulta. Desta
forma, tornar-se homem, ou tornar-se social, se encontra neste intelectual como a razão e a
consciência. Para promoção desta condição Kant fará uso do termo ‘disciplina” para modelar a ação
do sujeito e ao mesmo tempo retirá-lo da condição de animalidade e dependência na qual se encontra
na sua infância.
Conclui-se que para Kant, o homem tem necessidade da razão e como esta não se manifesta nos
momentos iniciais da vida (porque está vinculada ao conceito de consciência e conseqüentemente ao
conceito de independência) o processo educacional realizado por um grupo social específico
(primeiro no espaço familiar e em outro momento no espaço social, sob o governo ora do Pai ora do
Príncipe) cumprirá este papel e formará no sujeito a sua capacidade de pensar e de tomar decisões.
A tendência em pensar racionalidade e consciência sem vincular à submissão da ação às leis ou
regras sociais é um erro na ótica de Kant. Segundo este pensador a condição de selvageria conduz o
indivíduo à não observação dos ideais e comportamentos, regulações e leis sociais. A formação do
indivíduo constitui uma observância constante da vida em sociedade, uma racionalização dos
comportamentos e uma análise ininterrupta da vida como forma de alicerçar o princípio de
singularização. Ao mesmo tempo é importante ressaltar que Kant anuncia os princípios de
disciplinarização e racionalização(instrução) como suficientes para retirar o homem da condição de
animalidade, porém adverte que estes princípios possuem dupla implicação, uma negativa: a
disciplina, pois retira do sujeito a sua selvageria (uma condição imanente?).
O fato de retirar uma condição que iria necessariamente acompanhar o indivíduo durante toda a vida
é, segundo Kant negativa pela condição de retirada de algo que nasce com o sujeito, no entanto, há
na sua obra um alerta para a dupla condição do indivíduo: tornar-se humano e social. Esta dupla
condição faz com seja necessária a passagem da situação de animalidade para a de sujeito social o
que altera radicalmente sua condição. Tornar-se humano é outro imperativo que só pode ser
alcançado pela ação da disciplina, ou a ação do mundo simbólico, mundo social sobre o indivíduo.
Para Kant a Instrução é a outra dimensão da educação que submete o sujeito ao processo de
transformação para torná-lo um ser social. É a condução da ação humana por uma dimensão
teleológica. Vislumbrar os fins da ação humana conduz também à possibilidade de avaliar situações
sociais e obrigar o ser humano em formação a tomar decisões, fazer opções, julgamento, o que na
verdade é um exercício da razão pura.
O processo de disciplinarização defendido por Kant vai além dos conceitos de disciplina e liberdade
dos seus predecessores Rousseau e Jonh Lock que defendiam um conceito de disciplina do corpo
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como forma de modelização para exercício da força que junto com o desenvolvimento da virtude
formariam o homem social, virtuoso. Em Kant, o conceito de disciplina está vinculado ao conceito
de formação do humano, para além das demandas sociais, das especificidades de determinada
cultura.
A formação do homem a partir do conceito de espécie humana, um conceito baseado numa
antropologia incipiente, porém radicalmente inovadora para o século XVIII. Com este
esclarecimento Kant inaugura uma defesa que será evidente nos seus escritos e de forma simples ele
anuncia uma radicalidade conceitual e defesa sobre a condição de imanência do ser humano: um
sujeito que nasce com a necessidade de tornar-se humano, o que faz com que a educação seja eleita o
instrumento social para incutir no ser a idéia de humanidade e fazer emergir sua condição de
bondade e sensibilidade.
Em Kant, a educação do homem através da disciplina faz mais do que moldar o corpo para reiterar
tipos sociais; a educação cria uma espécie de nascimento da razão, ou ainda, uma emersão da razão o
que faz o homem desviar-se do seu destino ou desviar-se de sua humanidade inerente para cair nos
riscos da animalidade.
Da mesma forma que esta disciplinarização contém o ser humano do ideal de liberdade como
defendia Rousseau, ou seja uma inclinação desde a tenra infância à liberdade social. O que será
combatido por Kant por se tratar de um conceito torpe de liberdade: uma liberdade que é
eminentemente condição da racionalidade, nascida e executada por um sujeito que na fase infante,
não teria esta razão, condicionante, ainda formada. O que na verdade inviabiliza a liberdade.
Liberdade, consciência, e razão são conceitos interdependentes em Kant. Desta forma, Kant defende
a idéia de uma educação formadora e meio de incutir no sujeitos a sua condição de humanidade, esta
poderia vir da formação cultural dos sujeitos.
Com esta defesa Kant situa o conceito de escola como espaço que serve a um papel importante na
formação da criança. Para ele as crianças não são lançadas à escola para aprenderem conceitos,
epistemologia de objetos, realizar reflexões filosóficas, mas o ideal da escola serve à criança para
gerar certos costumes como o de ficar sentada e a inclinação à obediência a fim de que no futuro,
depois da formação da razão e exercício desta, esta criança consiga seguir de fato e imediatamente
seus caprichos.
O homem submetido à educação deverá passar por quatro processos até chegar a sua formação ideal.
Situaremos estes processos aqui e faremos ao mesmo tempo uma análise sobre cada um deles que
envolvem desde a modelação do corpo à formação da moral, níveis diferentes e naturezas diferentes
de formação.
Antes, porém, e válido ressaltar que o pensamento Kantiano se difere dos pensadores da época por
que ao mesmo tempo que nega os princípios de educação preconizado em autores como J.J.
Rousseau com o modelo de educação individualista, com predomínio da natureza como referencial
maior, sua demandas, seus tempos, seu movimento; da mesma forma que nega o princípio de
modelação do corpo através da exposição da criança às intempéries, às oscilações do tempo como
forma de enrijecimento do corpo e criação de defesas e aprendizagens com finalidade de
sobrevivência registrado no pensamento de John Lock no século XVII.
Essa negação dos princípios defendidos por intelectuais contemporâneos e de séculos anteriores ao
pensamento de Kant, faz com que este pensador seja impelido a criar uma defesa, um modelo, uma
referência de educação (e a trajetória de vida já o impulsionaria a esta criação pelo força do tempo)
que estivesse plena de princípios morais e disciplinares como forma de retratar sua própria formação
protestante.
O princípio da Disciplina como já abordamos no início deste texto é uma das ações mais bem vistas
por Kant como originado de uma educação sistemática que poderá ser dada na escola ou não, mas o
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espaço escolar seria sobremaneira o espaço desta ação, que na verdade é uma transposição de
princípios e ideais sociais sobre o homem, a criança em formação. Este ideal se materializa pela
reconstrução do comportamento que dá lugar, por uma modificação substancial, à um conjunto de
ações regidas por padrões sociais e que segundo Kant, dá ao sujeito a condição de humanidade.
O segundo processo defendido por Kant como composição da educação da criança e como forma de
atribuir sentido à condição de humanidade é a ação exercida no sujeito para torná-lo culto. Esta ação
será defendida por Kant como forma de gerar capacidades no sujeito para sua existência social,
permeada por símbolos e sentidos determinados culturalmente e modificadas por processos de
aprendizagens.
Kant defenderá a idéia de uma educação que retira o sujeito da condição incipiente de interpretação e
análise da vida e o coloca em outra situação, a de existência coletiva e possibilidade de sobrevivência
social, o que significa dizer que a vida em sociedade depende necessariamente de uma formação
cultural, uma entrada simbolicamente sistematizada na sociedade através da composição do que ele
vai chamar de “criação de habilidade” o que será sugerido em seguida como sendo a posse de um
tipo de capacidade condizente com os fins que se almeja em uma sociedade.
Para Kant, existem habilidades que são úteis em todos os casos como o que chamaríamos de
tecnologias do escrever e ler, da mesma forma de existem outra habilidades que só serão utilizadas
em momentos e fins específicos, como o é a música, citada por ele como meio para nos tornarmos
agradáveis para os outros.
O terceiro processo que será por Kant denominado de exercício ou formação para a prudência,
deverá conduzir o homem, ou a criança em formação para ocupar e permanecer em um lugar na
sociedade e que seja querido e que tenha influência. Este tipo de formação será chamado por Kant
como Civilidade ou ainda como condição necessária para a vida social. Este conceito é importante
porque Kant constrói uma imagem de sociedade diferente do que era veiculado nos escritos de
filósofos contemporâneos como o próprio Rousseau. Para este filósofo a vida em sociedade será
possível pela existência de Contratos organizados sistematicamente como forma de regulação da vida
nos campos empíricos e simbólicos para controle de pessoas que em sociedade se tornam más.
Kant parte para um outro princípio diferente do modelo contratualista que caracterizou filósofos e
pensadores sociais no século XVIII. Ele considerará a composição social que se dá por estes
processos educativos, como uma composição boa e conseqüentemente as pessoas em sociedade
como pessoas boas e não bárbaros ou corruptos como era pensado por Rousseau na mesma época. A
prudência deverá conduzir à gentileza e ao mesmo tempo permitir a existência coletiva com base nas
ações gentis, corteses. Esse é um dos princípios de maior força na concepção de sociedade em Kant:
uma sociedade gentil, uma sociedade composta por pessoa educadas, prudentes, corteses e que tem
na educação a fonte desta formação.
O último princípio anunciado por Kant é o cuidado com a moralização. A moral Kantiana será
discutida em uma de suas obras de maneira mais densa e em Sobre a Pedagogia ele defende a idéia
de um homem preparado para todas as obras e fins. Mas como sua defesa é em torno de um tipo de
moral que conduz a ação para aquilo que é bom e o ser que faz escolha é um ser também formado
para a bondade, não bastará ser capaz de agir para fins diversos, a capacidade gerada pela moral
conduzirá para aqueles fins considerados bons.
Para Kant, os fins bons são aqueles aprovados por todos o que se transformaria nos fins bons para o
indivíduo. Há uma interpretação de que o desejo coletivo, por ser construído pelo grupo social,
determinado culturalmente deve ser a tradução do desejo individual, ou ainda, a representação e o
desejo coletivo significaria o desejo da humanidade; a relação neste momento não é somente de
sujeito social, mas de sujeito humano. De uma análise de sociedade teríamos uma interpretação
antropológica de bem social.
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Esta relação nos permite uma compreensão de educação característica do século XVIII, uma
educação para a ação do sujeito, para vida social, virtuosa e ao mesmo tempo uma educação voltada
para o desenvolvimento de uma razão condutora, uma razão interpretativa.A contribuição de Kant
para a estruturação do pensamento educativo moderno é sem dúvida, singular.
CONCLUSÃO
A alternativa apresentada pelo pensador para formação do sujeito traz uma questão importante que
perpassou por vários filósofos até aqui: qual a finalidade do educar? Ou ainda: quem poderá educar
alguém, família ou o Estado? Para estas perguntas, Kant anuncia respostas possíveis: A finalidade da
educação é formação do humano e do sujeito social. Retirar o homem da condição de animalidade
inerente ao início de sua vida e restringir a liberdade que parecerá mal se desenvolvida, conduzirá
necessariamente à barbárie e a não observância as leis.
Para a questão da assunção da educação, Kant anuncia o papel da família e do Estado, os dois devem
partilhar responsabilidades porém ao Estado, ou melhor, ao Príncipe é dada a função de conduzir a
educação de toda a sociedade já que o fim da formação humana é a vida em sociedade, orientada
pelo princípio de cortesia, gentileza e alcance de fins coletivos.
O sentido de coletividade é central na perspectiva de formação kantiana e, para além dos dados de
vida societária, Kant anuncia a necessidade de desenvolvimento da razão como forma de
racionalidade condutora de ações, uma espécie de razão que se vale de representações coletivas para
sustentar-se como razão social. A partir do conceito de moralidade e racionalidade, Kant faz dá uma
contribuição ainda no campo da busca da felicidade humana. Não é o objeto desta análise, mas cabe
uma pequena reflexão.
A segunda metade do século XVIII período de análise kantiana é marcado por posturas dos Príncipes
e dos grupos sociais que são analisados de forma sistemática por este intelectual e no que diz respeito
à relação entre Estado e Indivíduo, Kant faz uma análise sobre a felicidade do Estado como sendo
incompatível com a felicidade individual. À medida do crescimento de um, acontece o inverso com o
outro. Nesse caso, respectivamente, Estado e Indivíduo. Novamente o conceito de vontade coletiva e
desejo individual, incompatíveis, quando se pensa linearidade, porém interdependente e
complementares.
Para Kant, a felicidade do homem está vinculado à submissão as regulações do Estado e ao mesmo
tempo pela passagem em todos os processos de formação educativa. Desta forma a educação
cumpriria um duplo papel: formaria o humano, sentido antropológico e formaria o sujeito social, no
sentido político. È ainda válido ressaltar, à guisa da conclusão que o processo educativo é visto por
Kant como forma indissociável de constituição exitosa da sociedade. Sem a educação não há
possibilidade de formação do homem e haverá sua condenação à condição de animalidade e barbárie,
sem possibilidade de mudança pelo imperativo da força da vontade individual.
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